Leme, 1959. Uma euforia paira no ar. Todos estão sabendo, comentando. O Cine Marabá, mesmo que impetuoso, já não comportara mais a demanda de público. Entre 1947 e 1951 a freqüência da população nas sessões pula de 400 a basicamente 1000 pessoas, proliferando-se cada vez mais por entre a década de ouro. Essa procura insaciável pela arte cinematográfica provoca o impulso às empresas Taufic Nassif que entra de cabeça em seu mais novo empreendimento. Uma sala de cinema gigantesca, um espaço cuidadosamente projetado, com design arquitetônico moderno aos olhos dos 60’s, capacidade para 1.200 pessoas sentadas, tela e sistema sonoro majestosos... O Cine Alvorada.
Aos olhos dos empreendedores, seria interessante a inauguração coincidir com o 64° aniversário da cidade... Pois dito e feito. Obras euforicamente adiantadas e finalizadas em um período de seis meses, para que tudo ficasse pronto até o 29 de agosto de 1959. Uma energia e empenho inexplicáveis, que Kamal e sua equipe nunca deixaram de exibir no tão famoso Cine Marabá, herança existente na família já há alguns anos e aspirante a um incrível sucesso.
Com o agosto de 1959 era praticamente impossível ser um lemense elitizado e não se sentir extremamente instigado diante da inovação e modernidade da cultura cinematográfica da cidade. Até que, para uma cidade provinciana, praticamente agrícola e um tanto coronelista, já se tornava de bom grado um espaço desses, tão exorbitante. Uma grande viva ás empresas Taufic Nassif por essa iniciativa privada. PRIVADA.
Chega o 29 de agosto. Abrem-se as portas para o início de uma nova era. O novo cinema surge como uma Alvorada Alegre. Ainauguração de gala contou com participação de vários ícones políticos e autoridades do estado de São Paulo, dentre eles vários prefeitos da região, vereadores, deputados e senhores como Dr. Queiroz Filho (secretário da educação em 59), Brigadeiro Faria Lima (secretário da Aviação) e o excelentíssimo Senhor Armando Coelho, prefeito em 1959. O Cônego Simões de Lima ministrou a benção no local e o Sr. Kamal discursou oferecendo ao público o novo cinema.
Segundo o Jornal Folha de Leme, em sua publicação de agosto de 59, o orador foi alvo de acaloradas palmas e isto aconteceu não só pela grande obra realizada, como pela estima que tem sabido conquistar entre nós.
O novo Cine Alvorada inicia suas atividades com um Festival de Inauguração, em três colossais sessões: 15:00, 18:00 e 21:00 hs, com a exibição de nada mais nada menos que o filme “Raízes do Céu” ( The Roots of Heaven ), sucesso de 1958, um drama do diretor John Huston.
A partir daí, vários outros filmes marcam história na telona do Cine Alvorada. Enquanto o Marabá se especializava em seriados, bang bang’s e Mazzaropis, o Alvorada tomava conta de filmes mais finos, da época do cinemascope (widescreen), como Ben Hur,Os Dez Mandamentos, O Manto Sagrado, E o Vento Levou, dentre outros.
Havia nesse período, até três ou quatro sessões lotadas, incluindo matinês, o total de 1.200 poltronas preenchidas, e alguns ainda assim, de pé. Sempre elegantes, requintados, saudosistas. Alguma senhorita ficou sozinha para a próxima sessão? Sem problemas, se ela procurava namoricos, não demorava muito para que encontrasse algum rapaz gentilmente educado que se sensibilizasse com cenas em comum de um filme romântico. Muitas famílias da cidade tiveram seus primeiros vestígios para um futuro ali naquela sala. Muitos se conheceram e se casaram graças ao Sr. Kamal e seu trabalho.
E quem diria que uma história de 52 anos de seções diárias iria chegar algum dia, em uma data de encerramento... Trinta e um de março de dois mil e onze...
Contudo, na atualidade, o cine alvorada ainda com sua gigantesca estrutura praticamente intacta,continua como o marco histórico cultural da cidade, um marco de outrora uma década de ouro. Ainda em sua estrutura estão os traços modernistas, visão poética do futuro da época em que foi construído, conserva-se ainda a mesma bomboniére, os mesmos projetores e a mesma paixão de antes pela sétima arte.
Mudou foi a cidade, mudou foram as pessoas, resistindo a tantas mudanças de administração ( o que levou a cidade a varias mudanças de rumos), a crises, falta de interesse cultural, como a cinematografia de meados de 80, e perca da identidade de uma cidade.
Em 1959 talvez ninguém ousaria dizer, nem como presságio, que suas atividades teriam ou estariam fadadas ao tempo, nem que o empreendedorismo estivesse somentevoltado a uma parcela elitista da população, mas a verdade é que mais que um simples cinema, se tornou peça fundamental da cultura lemense, tão enraizado que não ousou em fazer distinções, lemenses, ararenses, pirassununguenses, pobres, ricos, crianças, jovens e adultos, foi ponto de encontro entre sociedades, amantes e pessoas além de precursor de tantas histórias que começaram ali, simplesmente durante uma sessão.
Após tantos anos de prestação de serviço social á população, resta-nos agradecer infinitamente e esperar para ver em que se dará o fim desse processo que há muito se iniciou.
Escrito por Rosiane C. Cremasco e Sergio L. Calori Jr. No dia 29 de março de 2011.
(Todas as citações do texto foram retiradas de exemplares do Jornal Folha de Leme, de agosto de 1959).
Vejam também o vídeo que mostra a inauguração do Cine Alvorada, em 29 de agosto de 1959.
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